Faça o que você gosta… mas SÓ o que você gosta? por Guilherme Villasbôas Malburg*

“O trabalho que eu gosto ainda não foi inventado”

(Tully, Cidade das Ilusões – Fat City – 1972)

Muitos de nós crescemos ouvindo ou viemos a ouvir que, para encontrar uma ocupação, para iniciar uma carreira deveríamos buscar nossa paixão – uma ocupação que tem relação com nossa essência, algo que parecia escrito para ser. Seria uma tarefa muito mais fácil se estivesse escrito nas estrelas ou qualquer outro lugar, poderíamos consultar algum adivinho e resolver todas as nossas angústias.

Fato é que não conhecemos de pronto a nossa essência, ela não é transparente conosco. Talvez só venhamos a ter algo parecido com uma noção a respeito a partir de experiências, e nossas experiências no início da vida – durante a infância, adolescência, começo da vida adulta – podem ser guias muito importantes. Mesmo assim, agimos como se a “resposta certa” fosse aparecer como uma revelação mágica no momento de dúvida, em que precisamos decidir um rumo.

Talvez isso possa ser atribuído justamente à intensidade com que queremos encontrar essa paixão, acertando de primeira a escolha, porque qualquer coisa abaixo disso nos condenaria a uma vida de frustração. É aí que a necessidade de experimentar, de se envolver com atividades próximas de nossos interesses e habilidades, mesmo que não pareçam algo que gostaríamos de fazer a vida inteira, torna-se importante.

Ao olharmos para nossos interesses e hobbies, uma possibilidade seria fazer deles uma profissão – existe, porém, o risco de enjoarmos de nossos hobbies. Manter uma distinção entre as atividades pessoais e profissionais não só pode aliviar um pouco a confusão diante da urgência e ânsia de escolher, como pode ainda nos fazer descobrir novos interesses, que nem sequer conhecíamos: afinal, quem disse que a resposta certa era a que já conhecíamos?

Como é uma questão muito pessoal e não podemos contar com uma pessoa bondosa para soprar a resposta certa em nossos ouvidos, a única coisa “errada” a se fazer é se deixar paralisar pelo medo, pela falta de certeza quanto ao que seria nossa vocação. As tentativas, as experiências boas e ruins têm muito a contribuir com o processo de encontrar uma paixão: elas nos ensinam a não nos contentarmos com o menos, a sermos mais pacientes sem com isso sermos resignados, e oferecer um modelo muito mais próximo e fiel do que nos seria o ideal.

Via de regra, será melhor realizar esses esforços com funções que não parecem a resposta imediata, pois no fim teremos mais com eles, descobriremos mais coisas que nos agradam (e que nos desagradam também, o que talvez é tão, se não mais, importante). A resposta para o que queremos em nossas vidas pessoais, profissionais, e a diferença entre ambos, é uma construção que, tal como Roma, não foi feita em um dia, e talvez nunca termine – e nem por isso as pessoas deixaram de viver ou de realizar grandes obras por lá.

 

* Guilherme Villasbôas Malburg é advogado, formado em Direito pelo Centro Universitário Curitiba, estudante de Psicologia na Universidade Tuiuti do Paraná e Orientador Profissional capacitado pelo Portal Vocacional .

Contato: guilhermevmalburg@gmail.com / https://www.linkedin.com/in/guilherme-malburg-70244562/

Imagem: Wikicommons